Mulher: você não é responsável pela violência que sofre
- Diego Augusto Santos
- 14 de ago.
- 3 min de leitura
Um relacionamento abusivo pode envolver diferentes formas de violência, como controle, humilhações, ameaças, manipulação, isolamento, desqualificação, violência física ou sexual e outras atitudes que restringem a liberdade e a autonomia da mulher. Muitas vezes, essas experiências acontecem de maneira gradual, tornando difícil perceber quando determinados comportamentos ultrapassaram os limites de uma relação saudável. Na perspectiva da Análise do Comportamento, é importante compreender que a permanência em uma relação abusiva não deve ser interpretada como falta de força ou de vontade, mas considerando a história de aprendizagem da mulher e as consequências presentes em seu ambiente. Situações de controle e coerção podem produzir impactos importantes sobre a saúde mental, estando associadas a sintomas de ansiedade, depressão, estresse e sofrimento relacionado a experiências traumáticas.
Viver continuamente sob medo, críticas, ameaças ou imprevisibilidade pode fazer com que a mulher passe a monitorar constantemente suas próprias atitudes, tentando evitar conflitos ou novas situações de violência. Com o tempo, isso pode contribuir para sentimentos de culpa, insegurança, desvalorização pessoal, isolamento e dificuldade para reconhecer as próprias necessidades e desejos. Alguns comportamentos que parecem, à primeira vista, contraditórios — como evitar discussões, ceder às exigências do parceiro ou permanecer na relação — podem ter uma função de proteção diante de um contexto em que determinadas escolhas trazem consequências aversivas. Por isso, é fundamental olhar para essa mulher com acolhimento, e não com julgamentos sobre aquilo que ela “deveria” ou “não deveria” fazer.
Nesse contexto, a psicoterapia pode ser um espaço importante para que você possa falar sobre o que está vivendo sem ser culpabilizada. O acompanhamento psicológico pode ajudar na compreensão dos padrões presentes na relação, no reconhecimento das formas de violência e no fortalecimento de recursos para lidar com as dificuldades enfrentadas. Também pode favorecer a ampliação da rede de apoio e a construção de estratégias de proteção e segurança. Isso não significa que você precise tomar uma decisão imediata sobre permanecer ou terminar a relação: o processo terapêutico pode respeitar seu tempo, sua realidade e as condições concretas nas quais você está inserida. A literatura sobre intervenções psicológicas com mulheres que vivenciam violência por parceiro íntimo destaca justamente a importância de considerar estratégias de redução de danos e segurança.
A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) pode oferecer recursos especialmente relevantes nesse processo. Em vez de ensinar a mulher a simplesmente “controlar” ou eliminar pensamentos e sentimentos difíceis, a ACT busca desenvolver flexibilidade psicológica: a capacidade de reconhecer pensamentos, emoções e sensações dolorosas sem permitir que eles determinem, sozinhos, todos os seus comportamentos. O trabalho terapêutico envolve também identificar valores — aquilo que é verdadeiramente importante para você — e construir, de maneira gradual e possível, ações que estejam de acordo com esses valores.
Pesquisas recentes têm encontrado resultados promissores para intervenções baseadas em ACT com mulheres que vivenciaram violência por parceiro íntimo. Estudos identificaram reduções em sintomas de estresse pós-traumático e de inflexibilidade psicológica, além de aumento da autocompaixão; outras pesquisas encontraram redução de depressão e estresse e melhora do bem-estar e da resiliência após intervenções baseadas em ACT. Embora cada história seja única e a psicoterapia não substitua medidas de proteção diante de situações de risco, buscar ajuda pode ser um primeiro passo importante para voltar a escutar a si mesma, compreender o que está acontecendo e recuperar possibilidades de escolha.
Se você reconhece sua própria história em algumas dessas situações, saiba que não precisa enfrentar tudo sozinha. Você não é responsável pela violência que sofre. Procurar atendimento psicológico pode ser uma oportunidade de encontrar um espaço seguro para compreender sua experiência, fortalecer sua autonomia e construir caminhos que façam sentido para você. O objetivo não é dizer o que você deve fazer, mas caminhar ao seu lado enquanto você recupera, pouco a pouco, a possibilidade de escolher como quer viver.

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